“Olá Francis Bacon”, disse Ele em voz alta ao entrar na sala
com seu asteísmo Maquiavelico. Ela, de nome Franciely (e apelido Fran),
responde com sua insipiência persuadida; “Não sou Bacon nenhum”, referindo-se ela ao Bacon Suíno, não ao Filosofo Inglês estrategicamente mencionado por
Ele.
Francis Bacon (o inglês) disse certa vez que “Conhecimento é
Poder”, mas receio que o exercício deste “poder” divorciado da ética, para o não
cumprimento de objetivos e interesses que se distribuam no tempo revela-se uma
receita para degradação paulatina.
Baudelaire disse que quem domina uma língua (Gramática e
Oratória) “exerce um feitiço evocatório”. Ele, meu amigo protagonista desta
história, sabia muito bem manejar este “feitiço”. Sociólogo e professor, Ele agora
encontrara emaranhado e aprisionado no labirinto competitivo da Indústria
Catarinense, sabia muito bem como se movimentar neste engodo, como um bom
estrategista.
Nós costumávamos ter longas tardes homéricas de conversa em
sua sala gerencial. Melhor dizendo, não conversávamos, era mais um monólogo eremítico.
Lembro-me de escutar mais do que falar, e Ele sempre preocupado em manter o
ritmo da prosa, citando teóricos e fraseando teorias, sinal aparente de
insegurança social ou urgência agônica de auto preservação. Eu escutava com
atenção cada palavra, preparado para responder ao sinal de qualquer
oportunidade que me permitisse, mas era rara a deixa. Mas enquanto eu o
escutava, dialogava comigo mesmo e creio que interagia no olhar. Afinal,
“silencio também é Música” já dizia o poeta.
Certo dia, ao me explicar o resultado de uma apresentação do
filho da diretora Ele soltou uma de suas ótimas frases “O menino fala com segurança e ‘des’pretensão comum de quem nasceu rico”.
Guardei essa para mim no mesmo lugar de outras!
Mas mesmo sendo astucio, Ele era alarmado. Ele era como o menino fruto do equivoco de
Minos que envergonhado do “monstro” que criou construiu um labirinto para ali
deixar o menino monstruoso. Mas não era auto
enganado, sabia muito bem do por que (e por quem) toda aquela “correria” com
data de inicio e receio de fim. Praticava muito bem a filosofia do cotidiano e
sabia que afinal de contas, no final das contas, a equação era sua mulher e
seus dois filhos e seu ‘EU’, é claro. Ele nunca me verbalizou isso, não foi
preciso, lia-se nas entrelinhas do que não era dito. Eu admirava isso!
No final de minha jornada, certo momento nós conversamos
secretamente em uma sala de reunião, ele me aconselhou a “seguir meus passos”
para longe dali; “procure um líder que saiba quem é Francis Bacon”, disse ele.
Eu não sabia ao certo se aquela conversa continha subterfúgios e olhar oblíquo
ou sinceridade amiga, de qualquer forma eu sabia e lamentava que aquela era nossa
última conversa.
Crônica Jornal o Tempo - 2016