terça-feira, 23 de agosto de 2016

“Olá Francis Bacon”

“Olá Francis Bacon”, disse Ele em voz alta ao entrar na sala com seu asteísmo Maquiavelico. Ela, de nome Franciely (e apelido Fran), responde com sua insipiência persuadida; “Não sou Bacon nenhum”, referindo-se ela ao Bacon Suíno, não ao Filosofo Inglês estrategicamente mencionado por Ele.

Francis Bacon (o inglês) disse certa vez que “Conhecimento é Poder”, mas receio que o exercício deste “poder” divorciado da ética, para o não cumprimento de objetivos e interesses que se distribuam no tempo revela-se uma receita para degradação paulatina.  

Baudelaire disse que quem domina uma língua (Gramática e Oratória) “exerce um feitiço evocatório”. Ele, meu amigo protagonista desta história, sabia muito bem manejar este “feitiço”. Sociólogo e professor, Ele agora encontrara emaranhado e aprisionado no labirinto competitivo da Indústria Catarinense, sabia muito bem como se movimentar neste engodo, como um bom estrategista.

Nós costumávamos ter longas tardes homéricas de conversa em sua sala gerencial. Melhor dizendo, não conversávamos, era mais um monólogo eremítico. Lembro-me de escutar mais do que falar, e Ele sempre preocupado em manter o ritmo da prosa, citando teóricos e fraseando teorias, sinal aparente de insegurança social ou urgência agônica de auto preservação. Eu escutava com atenção cada palavra, preparado para responder ao sinal de qualquer oportunidade que me permitisse, mas era rara a deixa. Mas enquanto eu o escutava, dialogava comigo mesmo e creio que interagia no olhar. Afinal, “silencio também é Música” já dizia o poeta.

Certo dia, ao me explicar o resultado de uma apresentação do filho da diretora Ele soltou uma de suas ótimas frases “O menino fala com segurança e ‘des’pretensão comum de quem nasceu rico”. Guardei essa para mim no mesmo lugar de outras!

Mas mesmo sendo astucio, Ele era alarmado.  Ele era como o menino fruto do equivoco de Minos que envergonhado do “monstro” que criou construiu um labirinto para ali deixar o menino monstruoso.  Mas não era auto enganado, sabia muito bem do por que (e por quem) toda aquela “correria” com data de inicio e receio de fim. Praticava muito bem a filosofia do cotidiano e sabia que afinal de contas, no final das contas, a equação era sua mulher e seus dois filhos e seu ‘EU’, é claro. Ele nunca me verbalizou isso, não foi preciso, lia-se nas entrelinhas do que não era dito. Eu admirava isso!


No final de minha jornada, certo momento nós conversamos secretamente em uma sala de reunião, ele me aconselhou a “seguir meus passos” para longe dali; “procure um líder que saiba quem é Francis Bacon”, disse ele. Eu não sabia ao certo se aquela conversa continha subterfúgios e olhar oblíquo ou sinceridade amiga, de qualquer forma eu sabia e lamentava que aquela era nossa última conversa. 



Crônica Jornal o Tempo - 2016

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sopro ( Poema do Afeto)



Grite o corpo a falta
Clame a mente o afeto
Acorda deste enfado
De graça a manha traz o certo
A alma busca inquieta ao fundo
O sentido neste rotineiro mundo

Deus sempre chega perto
Quando me percebo incompleto
Onde estás ó mente? - Em busca de frações de paz!
Corpo, onde estás? - Tentando ser completo!
Caminho um tanto incerto!
Certamente não serás.

Cresça, Sofra, ame, sinta o gozo.
Mova-se enquanto existe sopro.

Thiago Ventura - 17/04/2014(© todos os direitos reservados)



sábado, 23 de novembro de 2013

Imperfeição.


Não absorvo nem metade do que repara os olhos.

Sinto, e trago sempre o desejo da verdade, Contorno que se abre, Belo Horizonte.

Digo a verdade, minto, talvez pra manter intacta a sanidade.

Aberto ao avesso, oposto ao niilismo, penso porque sinto e não sinto porque penso.

Se não perco o medo de perder tudo, não começo a viver.

Saber, quem sabe é, saber que não sabe nem o fim nem o começo.

Desejo é séptico, a carne é cética, a alma é doce e forte como o sangue pardo que trago e tenho. 


Não há vida sem razão, sem emoção, sem contradições, sem alegrias, sem tristezas, sem AMOR.

"Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano."
Nelson Rodrigues

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pru quê? - Pompilho Diniz

Hoje eu quero falar de esperança. Esperança que no livro do Eric Fromm "A revolução da esperança" é conceituada de maneira bíblica como fé. Não quero me ater a bases epistemológicas, apenas a esperança. Quero desanuviar com esse momento de reflexão.
Me sinto forçado a citar esse poema de Pompilho Diniz interpretando nele o amor incondicional de Deus para conosco. Ele que carrega nosso jugo e muitas vezes não o deixamos carregar. Seja pelas vicissitudes da vida, seja pela falta de tempo ou de reflexão ou ainda, comunhão.
Se analisarmos o poema, é uma carta de Deus para conosco, homens simples e frágeis. Uma carta de amor, daquele que expressou o maior amor que pode ser expressado. Se a sua vida está difícil e assim como eu você encontra-se cansado, faça como diz a música: "Não tema, siga adiante e não olhe para trás. Segura na mão de Deus e vá".
É um poema caipira e obviamente a linguagem parece neologismo, mas é um tipo de onomatopéia para ambientar e regionalizar. Ao mesmo tempo, faz lembrar que não importa o quão longe você estiver, Ele (o Verbo que se fez carne) estará sempre ao seu lado para te amparar.



Pru quê
"Pru quê tu chora, pru quê?
Pru quê teu peito saluça
e o coração se adebruça
nos abismo do sofrê?
Tu pode me arrespondê?
Pru quê tua arma suzinha
pelas estrada caminha
sem aligria mais tê?

Pru quê teus óio num vê
e o coração não escuita
no sacrificio da luita
este cunvite a vivê?
Eu te prugunto, pru quê?
pru quê teus pé já sangrando
cuntinua caminhando
pela estrada do sofrê?

Pru quê tua boca só fala
das coisa triste da vida
que muita veiz esquecida
dentro do peito se cala?
quando o amô prefume exala
pru quê tu mata a simente
dessa aligria inucente
que no seu sonho se embala?

Pru quê que teu coração
é cumo um baú trancado
e dento dele guardado
só desespero e afrição
Pru quê num faiz meu irmão
uma limpeza la dentro
varrendo cô pensamento
os ispim da mardição?

Pru quê tu véve agarrado
nas asa desse caixão
que carrega a assumbração
desse difunto, o passado?
Se tu já véve cansado,
interra todo o trumento
na cova do isquicimento
pra nunca mais sê lembrado

Despois disso, vem mais eu...
vem ouví pelas estrada
o canto da passarada
que em seu peito imudeceu.
escuita a vóz das cascata,
chêra o prefume das mata,
óia os campo, tudo é teu...

Aprende côs passarim
que só tem vóz pra canta
com o sor que nasce cedim
e vem teu frio esquentá
Óia as estrela, o luar
mas antes de tu querê
isso tudo arrecebê
aprende primeiro...
a dá."


A felicidade não é o lugar para o qual se vai, mas a maneira como se vai.
Viver a vida em abundância é rir até se acabar, é chorar aos borbotões, é ter problemas, alguns com soluções.

Eclesiastes  9- 7a10.
7 - Portanto, vá em frente. Coma com prazer a sua comida e beba alegremente o seu vinho, pois Deus já aceitou com prazer o que você faz.
 8 - Procure sempre parecer feliz e satisfeito.
 9 - Enquanto você viver neste mundo de ilusões, aproveite a vida com a mulher que você ama. Pois isso é tudo o que você vai receber pelos seus trabalhos nesta vida dura que Deus lhe deu.
 10 - Tudo o que você tiver de fazer faça o melhor que puder, pois no mundo dos mortos não se faz nada, e ali não existe pensamento, nem conhecimento, nem sabedoria. E é para lá que você vai.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Projetos de Vida.

Quando pensamos sobre a concepção de um projeto pessoal de vida temos que ter em mente dois verbos: o fazer e o ser (podemos incluir ainda um terceiro verbo: o ter), ou seja, o que fazer para ser o que queremos e ter o que queremos. Um projeto começa com um desejo de estar melhor, uma noção difusa, que não define como; para realizá-lo é preciso ter clareza para onde se quer ir, construindo uma estratégia para poder atingir, porém a realização é limitada pelas crenças e paradigmas pessoais. Para acontecer uma ação bem sucedida é preciso ter disciplina e dedicação.


Uma pessoa interessada em criar um projeto pessoal de vida, seja para escolher uma carreira profissional, mudar de emprego ou aprimorar suas habilidades, precisa seguir algumas premissas: é necessário sentir que precisa mudar; que é vantajoso mudar; que é possível mudar; e que chegou a hora de mudar. Após a definição de que haverá mudança, é preciso apreender o sistema de crenças pessoais, ou seja, entender as crenças, as verdades subjetivas, o que influi na forma de sentir e agir. As crenças existem para a sobrevivência do sujeito, são sistemas lógicos (ou pretensamente lógicos) gerados numa estrutura mental, as crenças mais significativas se instalam no período da infância, da formação estrutural do sujeito. Muitas crenças são irracionais, fantásticas, mágicas, não sendo fundamentada em fatos, mas por estarem ligadas ao campo emocional, acabam tendo influência quase que absoluta no nosso modo de pensar, sentir e agir. O sistema de crenças tem por finalidade evitar a dor (o sofrimento, o perigo); buscar o prazer (físico, de realização psicológica ou estético); e proceder julgamentos primitivos como bom (carinho, calor, prazer) ou ruim (frio, dor, ausência de carinho).


Não existem pessoas sem sistemas de crenças, porém muitas crenças agem de forma a limitar o sujeito, ou melhor, agem contra a pessoa, como por exemplo podemos citar as crenças catastróficas: problemas não escolhem hora nem lugar, escolhem você; se algo tiver que dar errado, dará. (a famosa Lei de Murphy). Assim, a questão é definir que crenças queremos ter. Mudar crenças é mudar a forma de se pensar, e isso não é nada fácil, é preciso ter dedicação e perseverança e muito planejamento estratégico para desenvolver um sistema de crenças que façam mais sentido para a forma como se quer viver.
Os fatores que determinam o sucesso são o entusiasmo, o fazer por prazer, dedicação, empenho, persistência, atitude positiva, otimismo, bom humor, inovação, autenticidade, simplicidade, decisão ágil, ação efetiva, comunicação eficaz e, principalmente, ter clareza para onde se quer ir e como chegar, além de desenvolver os meios para atingir o compromisso consigo. Os fatotes que impedem o sucesso são o negativismo, pessimismo, abatimento, baixa auto-estima, insegurança, inibição, omissão (medo de correr riscos), perfeccionismo (medo de errar), mentiras, trapaças, tramóias e mau humor.



A atitude construtiva para o desenvolvimento da estrutura do pensamento estratégico é a reciclagem da imagem (romper com o passado de insucesso), desenvolver competências (continuamente), evitar a busca frenética de resultados (falsa produtividade), assumir e cumprir compromissos (evitar justificativas), controlar a soberba (evitar atitude presunçosa), vencer a inveja (foco produtivo), ser polido, usar a cortesia (evitar impulsividade), participar, interessar-se pelos outros, saber ouvir, expor, pedir e negar.
Qualquer pessoa que queira crescer, em qualquer nível da vida, deve lembrar que os significados do que acontece ou aconteceu, daquilo que se colocam nos caminhos da vida, depende de como se olha para esses fatos. O passado é aquilo que se acredita que ele foi e não aquilo que talvez ele tenha sido, por isso mudar a linguagem (o pensamento) possibilita experimentar novos modos de sentimentos e significados.


Referência: 
MOACIR, Carlos - "Motivação para Crescer. Gestão de Projeto Pessoal.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

"Cristologia"

Toda semana me pego questionando conceitos ou pré conceitos enraizados na sociedade cristã evangélica, da qual faço parte como corpo de Cristo.
Mais o que me intriga, é que na maioria das vezes não me vejo satisfeito e por um leve momento me sinto um peixe fora d’água, ou talvez até um religioso ritualista rebelde que não consegue se encaixar nos “padrões”. Por não concordar com certas atitudes ou métodos utilizados no convívio sócio-cristão que interpelam minha mente ao rumo que devo de fato tomar.


Mais hoje desisti! Chutei o balde.
Não quero e não posso mais tentar definir Jesus ou muito menos tentar definir o meu “irmão”.
Nós humanos temos a triste mania de diminuir Jesus até que Ele caiba em nossa mente limitada, mais ele deixa de ser DEUS, deixa de ser primogênito da Criação e salvador para se tornar Martire Cristão.
Lá no Concílio de Niceia,o primeiro a aderir ao Cristianismo foi o imperador Romano Constantino I. O Cristianismo fui Criado , surgiu a primeira “definição” oficial da pessoa de Jesus.Uma faculdade que até os dias de hoje toma força em nossa sociedade.
Não quero mais definir Jesus quero viver , sentir perceber Jesus em tudo que faço.
Eu busco crescer cada dia mais na revelação da Graça de Cristo Jesus, aperfeiçoar meu caráter para viver a vida de Cristo aqui na terra.


Não quero mais olhar para traz, não quero mais olhar para o próximo, não quero mais olhar para mim mesmo e perceber que estou me tornando o resultado das afrontas e marcas que deixei e por varias vezes sofri no mundo.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

Perdão

Enxerguei pelo menos três aspectos dessa infeliz realidade das dores do amar e ser amado. Primeiro, percebo que a consciência da mágoa e do ressentimento nos chega inesperada, de súbito, como que vindo pronta, completa, de algum lugar. Mas quando chega nos permite enxergar uma longa história de conflitos, mal entendidos, agressões veladas, palavras e comentários infelizes, atos e atitudes danosos, que foram minando a alegria da convivência, criando ambientes de estranhamento e tensões, e promovendo distâncias abissais.



Quando nos percebemos longe das pessoas que amamos é que nos damos conta dos passos necessários para que a trilha do ressentimento fosse percorrida: um passo de cada vez, muitos deles pequenos, que na ocasião foram considerados irrelevantes, mas somados explicam as feridas profundas dos corações.

Outro aspecto das dores do amar e ser amado está no paradoxo das razões de cada uma das partes. Acostumados a pensar em termos da lógica cartesiana: 1 + 1 = 2 e B vem depois de A e antes de C, nos esquecemos que a vida não se encaixa nos padrões de causa e efeito do mundo das ciências exatas. Pessoas não são máquinas, emoções e sentimentos não são números, relacionamentos não são engrenagens. É ingenuidade acreditar que as relações afetivas podem ser enquadradas na simplicidade dos conceitos certo e errado, verdade e mentira, preto e branco. A vida é zona cinzenta, pessoas podem estar certas e erradas ao mesmo tempo, cada uma com sua razão, e a verdade de um pode ser a mentira do outro. Os sábios ensinam que “todo ponto de vista é a vista de um ponto”, e considerando que cada pessoa tem seu ponto, as cores de cada vista serão sempre ou quase sempre diferentes. Isso me leva ao terceiro aspecto.

Justamente porque as feridas dos corações resultam de uma longa história, lida de maneiras diferentes pelas pessoas envolvidas, o exercício de passar a limpo cada passo da jornada me parece inadequado para a reconciliação. Voltar no tempo para identificar os momentos cruciais da caminhada, o que é importante para um e para outro, fazer a análise das razões de cada um, buscar acordo, pedir e outorgar perdão ponto por ponto não me parece ser a melhor estratégia para a reaproximação dos corações e cura das almas.



Estou ciente das propostas terapêuticas, especialmente aquelas que sugerem a necessidade de re–significar a história e seus momentos específicos: voltar nos eventos traumáticos e dar a eles novos sentidos. Creio também na cura pela fala. Admito que a tomada de consciência e a possibilidade de uma nova consciência produzem libertações, ou, no mínimo, alívios, que de outra maneira dificilmente nos seriam possíveis. Mas por outro lado posso testemunhar quantas vezes já assisti esse filme, e o final não foi nada feliz. Minha conclusão é simples (espero que não simplória): o que faz a diferença para a experiência do perdão não é a qualidade do processo de fazer acordos a respeito dos fatos que determinaram o distanciamento, mas a atitude dos corações que buscam a reaproximação. Em outras palavras, uma coisa é olhar para o passado com a cabeça, cada um buscando convencer o outro de sua razão, e bem diferente é olhar para o outro com o coração amoroso, com o desejo verdadeiro do abraço perdido, independentemente de quem tem ou deixa de ter razão. Abraços criam espaço para acordos, mas a tentativa de celebrar acordos nem sempre termina em abraços.



Essa foi a experiência entre José e seus irmãos. Depois de longos anos de afastamento e uma triste história de competições explícitas, preferências de pai e mãe, agressões, traições e abandonos, voltam a se encontrar no Egito: a vítima em posição de poder contra seus agressores. José está diante de um dilema: fazer justiça ou abraçar. Deseja abraçar, mas não consegue deixar o passado para trás. Enquanto fala com seus irmãos sai para chorar, e seu desespero é tal que todos no palácio escutam seu pranto. Mas ao final se rende: primeiro abraça e depois discute o passado. Essa é a ordem certa. Primeiro, porque os abraços revelam a atitude dos corações, mais preocupados em se (re)aproximar do que em fazer valer seus direitos e razões. Depois, porque, no colo do abraço o passado perde força e as possibilidades de alegrias no futuro da convivência restaurada esvaziam a importância das tristezas desse passado funesto.

Quando as pessoas decidem colocar suas mágoas sobre a mesa, devem saber que manuseiam nitroglicerina pura. As palavras explodem com muita facilidade, e podem causar mais destruição do que promover restauração. Não são poucos os que se atrevem a resolver conflitos, e no processo criam outros ainda maiores, aprofundam as feridas que tentavam curar, ou mesmo ferem novamente o que estava cicatrizado. Tudo depende do coração. O encontro é ao redor de pessoas ou de problemas? A intenção é a reconciliação entre as pessoas ou a busca de soluções para os problemas? Por exemplo, quando percebo que sua dívida para comigo afastou você de mim, vou ao seu encontro em busca do pagamento da dívida ou da reaproximação afetiva? Nem sempre as duas coisas são possíveis. Infelizmente, minha experiência mostra que a maioria das pessoas prefere o ressarcimento da dívida em detrimento do abraço, o que fatalmente resulta em morte: as pessoas morrem umas para as outras e, consequentemente, as relações morrem também. A razão é óbvia: dívidas de amor são impagáveis, e somente o perdão abre os horizontes para o futuro da comunhão. Ficar analisando o caderno onde as dívidas estão anotadas e discutindo o que é justo e injusto, quem prejudicou quem e quando, pode resultar em alguma reparação de justiça, mas isso é inútil – dívidas de amor são impagáveis.



Mas o perdão tem o dia seguinte. Os que recebem perdão e abraços cuidam para não mais ferir o outro. Ainda que desobrigados pelo perdão, farão todo o possível para reparar os danos do caminho. Mas já não buscam justiça. Buscam comunhão. Já não o fazem porque se sentem culpados e querem se justificar para si mesmos ou para quem quer que seja, mas porque se percebem amados e não têm outra alternativa senão retribuir amando. As experiências de perdão que não resultam na busca do que é justo desmerecem o perdão e esvaziam sua grandeza e seu poder de curar. Perdoar é diferente de relevar. Perdoar é afirmar o amor sobre a justiça, sem jamais sacrificar o que é justo. O perdão coloca as coisas no lugar. E nos capacita a conviver com algumas coisas que jamais voltarão ao lugar de onde não deveriam ter saído. Sem perdão não existe amanhã.